Quando me perguntam se eu me sinto pressionada de alguma forma, não respondo de outra maneira: "mas não somos todos pressionados desde o útero?". Veja bem: não bastasse ficarmos de cabeça para baixo lá dentro, já à primeira contração, de tanta força que fazem, somos expelidos do cafofo.
Então, somos submetidos à pressão, ainda que inconsciente, da pariente para que falemos "mamãe" antes de "papai" - ela que, com toda paciência, nos alimenta, veste, ensina, mima e, com certa razão, deseja ser recompensada pelas noites passadas em claro.
Em seguida, o "papai" - que, salvo algumas exceções, pronunciamos primeiro - e a "mamãe" nos pressionam para que fiquemos de pé, larguemos a chupeta, aprendamos a tomar leite no copo e andemos por aí com tanguinhas de pano, substituindo aqueles modelos ultra confortáveis de fraldas ajustáveis, cobertura sempre seca.
Pois bem, mal nos acostumamos ao paninho, nossos pais já nos encaminham para o açoite: a escolinha da Tia Jurema, ambiente hostil onde se aprende o significado da palavra "trauma" e, dizem, também o be-a-ba. A sabedoria é, realmente, uma promessa ingrata...
Serão dias e dias de tortura, de "ô tiiiiia, o Miguelzinho me bateu com a lancheira, me derrubou no chão, me chutou e acertou meu olho com um aviãozinho de papel" (tudo isso sem motivo aparente - claro, porque vocês podem não acreditar, mas crianças são sim criaturas cruéis). E se não for o caso de o Miguelzinho implicar, não sejamos por isso: ainda haverá inúmeras chances de sermos os últimos escolhidos para fazer parte de um dos times de educação física, ou de sermos a sobra desconfortável que a professora tem de encaixar em panelinhas aleatórias quando rolam aquelas atividades desagradáveis em grupo na sala de aula - ou mesmo fora dela.
Além dessas, existirão uma série de outras pressões. Pressão para ir bem, para passar de ano, para fazer amiguinhos e não ser mais "o indesejável" ou definições similares.
Para "papai" e "mamãe", agora, passa a vigorar uma vontade de, ou dizer que está tudo bem, ou então não dizer absolutamente nada. Muito disso vem da pressão de mostrar que o fato de não estar tudo bem não implica num melhor ou pior desempenho escolar. E, se implica, não é com isso que eles realmente deveriam se importar - o problema é que eles se importam e a gente começa a sentir que as nossas necessidades são menores que as notas do boletim. Poor bastards... Mimimi.
Enfim, essas pressões de maternal/fundamental I todo mundo conhece. É o período em que o indivíduo atesta que há uma primeira vez pra tudo - tu.di.nho. Inclusive pr'aquele momento constrangedor, em que, levantada a mãozinha agonizante, reverbera na sala o "tiiiiia, eu preciso fazer xixi".
Entretanto, passado esse primeiro período da vida escolar, vem um outro, o fundamental II, que começa mais ou menos lá na quinta, sexta série (e, como as novas gerações comprovarão, há de começar cada vez mais cedo): a maldita puberdade. Nesse período, formamos classes de alunos convulsos, cada um mais doido que o outro para dizer que menstruou ou apertou o bumbum da menina mais bonita da escola da Tia Jurema! As pressões viram outras... O primeiro beijo; as músicas que todo mundo ouve, enquanto poucos ainda insistem no Vinicius e Toquinho, máximo do máximo Legião Urbana...; quem chama quem para dançar a quadrilha; as primeiras leituras realmente empolgantes, que te fazem querer sacudir o mundo e chegar para a menina esbravejando "O CORAÇÃO É A REGIÃO DO INESPERADO!", ou, no caso dos mais aventurados, "PISA NIMIM!".
Numa dessas, a gente descobre a expressão "pressão da sociedade". Não raro, é nessa época que a sociedade passa a ser a culpada oficial e absoluta de todas as nossas mazelas cotidianas. E é também nessa época que passamos a pertencer a uma "galera" - à dos populares, à dos nerds, à dos anarquistas, à dos gays etc.. Tudo pressão da sociedade que - e todo mundo diz isso um dia - quer porque quer que você se enquadre em um padrão, mas você, seu danadinho, vai fazer de tudo para ser você mesmo, sem rótulos, né? Eu sei, eu sei.
Daí, já mais calmos, adentramos o colegial. E aí vem a pressão pré-vestibular. Começam as perguntas: "do que você gosta?".
"Filho, o que você vai prestar?".
"Já decidiu, Joana?".
"Ah, então, eu acho que vou prestar Medicina! -- Sério, cara?! -- Sim, com especialização em ginecologia hauhauhuahuha!".
"Pai, vou ser policial. -- Tá de brincadeira comigo, moleque? -- Não. -- Então vem cá que eu vou lhe descer o cacete!".
"Acho que vou estudar para prestar concurso público".
"Joana, minha filha [...]".
"É muita pressão, é muita pressão!!".
"AI ESSA LACUNA NA FICHA DE INSCRIÇÃO DA FUVEST! CARREIRA:____".
"É agora, é agora! CARREIRA: geologia!".
"JOANA!!".
"Tem que passar na USP, viu?".
"Não estou te pressionando nem nada, filha, você sabe. Você sabe também que o dinheiro está curto, que o seu irmão não estuda e que você tem chances de passar numa universidade pública, né? Não estou te pressionando não, tá, filha? Mas vê se passa na USP".
"Menina que prestava Medicina pela quarta vez pula de prédio do Anglo".
Não bastasse isso, incorremos sempre em outras pressões. O chute na bunda daquele cara que já foi muito além do primeiro beijo; as amizades que agora ficam mais complexas e não podem ser resolvidas no tapa ou na troca apaziguadora de barbies; a família que estranha o fato de você, aos 20 anos de idade, não ter apresentado um único namorado, enquanto a sua prima já apareceu com 4 namorados, 2 noivos e um pretendente. A velha pressão da sociedade que, embora mais fraca, persiste em te fazer insistir naquela dieta de proteínas.
Depois da faculdade, vem a pressão para arrumar um primeiro emprego; para gostar pelo menos um tiquinho do curso (erroneamente) escolhido; para crescer profissionalmente e, se não for pedir demais, para crescer enfim. Pagando conta, claro. Retificação: pagando MUITA conta.
E por aí vai.