Um pseudo-portfólio.

quinta-feira, 25 de março de 2010

condimento

a vida nas migalhas.
a felicidade instantânea, fugidia - descreva?
heroína.
heroína romântica, heroína eufórica.
a bomba, o vão, a queda.
a queda de fraqueza, cansaço.
não queda a agonia, contudo.
não queda a barricada, não estronda o peso
contra o chão - só a vida.
ironia.
não tem medida essa balança:
a falta pede e o forro cansa.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

cisco no olho

eu aqui procurando o cisco
o dedão desbravando o olho

no mesmo instante da coçadela...
a bola atravessa a janela
a aliança dele no dedo dela
a rolha deixa a garrafa
a escolha escolhe aquela
que a vontade de outra abafa

o arpão acerta o peixe
a bala acerta o alvo
e ai de quem se queixe
o morto não ressucita
e o órfão fica a salvo

a turma assiste à tevê
dois valsam em Moscou
a menina sussurra aflita
o mais encantador clichê
o amor rebobina a fita
everybody enjoys this show

não encontro o maldito cisco
prossigo na procura chata
vão já dois dedos na bravata

no instante comum à exploração...
o homem ara a terra
o calo dói na mão
o recém-nascido berra
a semente cai no chão
o caminhão desce a serra

o menino leva à boca
raízes da terra seca
a menina à beira da estrada
vestido roto, rota veneta
o astrônomo e a sua luneta

a criança vai à escola
ela aprende alguma coisa
um terceiro não dá bola
o sangue corre e cora o rosto
o doente ri, o palhaço chora
todo mundo tem um gosto

vai chegando ao fim a busca
o provável cílio jaz localizado
não deste, mas do outro lado

concomitante ao fim da caçada...
o beijo esperado da namorada
a cena final do filme de ação
o trânsito, o balanço do pregão
a trilha de formigas na calçada
o descompasso do coração

e eis que não era um cílio, era poeira
o grão da temporária cegueira

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

catch [2]



ôpressão

Quando me perguntam se eu me sinto pressionada de alguma forma, não respondo de outra maneira: "mas não somos todos pressionados desde o útero?". Veja bem: não bastasse ficarmos de cabeça para baixo lá dentro, já à primeira contração, de tanta força que fazem, somos expelidos do cafofo.
Então, somos submetidos à pressão, ainda que inconsciente, da pariente para que falemos "mamãe" antes de "papai" - ela que, com toda paciência, nos alimenta, veste, ensina, mima e, com certa razão, deseja ser recompensada pelas noites passadas em claro.
Em seguida, o "papai" - que, salvo algumas exceções, pronunciamos primeiro - e a "mamãe" nos pressionam para que fiquemos de pé, larguemos a chupeta, aprendamos a tomar leite no copo e andemos por aí com tanguinhas de pano, substituindo aqueles modelos ultra confortáveis de fraldas ajustáveis, cobertura sempre seca.
Pois bem, mal nos acostumamos ao paninho, nossos pais já nos encaminham para o açoite: a escolinha da Tia Jurema, ambiente hostil onde se aprende o significado da palavra "trauma" e, dizem, também o be-a-ba. A sabedoria é, realmente, uma promessa ingrata...
Serão dias e dias de tortura, de "ô tiiiiia, o Miguelzinho me bateu com a lancheira, me derrubou no chão, me chutou e acertou meu olho com um aviãozinho de papel" (tudo isso sem motivo aparente - claro, porque vocês podem não acreditar, mas crianças são sim criaturas cruéis). E se não for o caso de o Miguelzinho implicar, não sejamos por isso: ainda haverá inúmeras chances de sermos os últimos escolhidos para fazer parte de um dos times de educação física, ou de sermos a sobra desconfortável que a professora tem de encaixar em panelinhas aleatórias quando rolam aquelas atividades desagradáveis em grupo na sala de aula - ou mesmo fora dela.
Além dessas, existirão uma série de outras pressões. Pressão para ir bem, para passar de ano, para fazer amiguinhos e não ser mais "o indesejável" ou definições similares.
Para "papai" e "mamãe", agora, passa a vigorar uma vontade de, ou dizer que está tudo bem, ou então não dizer absolutamente nada. Muito disso vem da pressão de mostrar que o fato de não estar tudo bem não implica num melhor ou pior desempenho escolar. E, se implica, não é com isso que eles realmente deveriam se importar - o problema é que eles se importam e a gente começa a sentir que as nossas necessidades são menores que as notas do boletim. Poor bastards... Mimimi.
Enfim, essas pressões de maternal/fundamental I todo mundo conhece. É o período em que o indivíduo atesta que há uma primeira vez pra tudo - tu.di.nho. Inclusive pr'aquele momento constrangedor, em que, levantada a mãozinha agonizante, reverbera na sala o "tiiiiia, eu preciso fazer xixi".
Entretanto, passado esse primeiro período da vida escolar, vem um outro, o fundamental II, que começa mais ou menos lá na quinta, sexta série (e, como as novas gerações comprovarão, há de começar cada vez mais cedo): a maldita puberdade. Nesse período, formamos classes de alunos convulsos, cada um mais doido que o outro para dizer que menstruou ou apertou o bumbum da menina mais bonita da escola da Tia Jurema! As pressões viram outras... O primeiro beijo; as músicas que todo mundo ouve, enquanto poucos ainda insistem no Vinicius e Toquinho, máximo do máximo Legião Urbana...; quem chama quem para dançar a quadrilha; as primeiras leituras realmente empolgantes, que te fazem querer sacudir o mundo e chegar para a menina esbravejando "O CORAÇÃO É A REGIÃO DO INESPERADO!", ou, no caso dos mais aventurados, "PISA NIMIM!".
Numa dessas, a gente descobre a expressão "pressão da sociedade". Não raro, é nessa época que a sociedade passa a ser a culpada oficial e absoluta de todas as nossas mazelas cotidianas. E é também nessa época que passamos a pertencer a uma "galera" - à dos populares, à dos nerds, à dos anarquistas, à dos gays etc.. Tudo pressão da sociedade que - e todo mundo diz isso um dia - quer porque quer que você se enquadre em um padrão, mas você, seu danadinho, vai fazer de tudo para ser você mesmo, sem rótulos, né? Eu sei, eu sei.
Daí, já mais calmos, adentramos o colegial. E aí vem a pressão pré-vestibular. Começam as perguntas: "do que você gosta?".
"Filho, o que você vai prestar?".
"Já decidiu, Joana?".
"Ah, então, eu acho que vou prestar Medicina! -- Sério, cara?! -- Sim, com especialização em ginecologia hauhauhuahuha!".
"Pai, vou ser policial. -- Tá de brincadeira comigo, moleque? -- Não. -- Então vem cá que eu vou lhe descer o cacete!".
"Acho que vou estudar para prestar concurso público".
"Joana, minha filha [...]".
"É muita pressão, é muita pressão!!".
"AI ESSA LACUNA NA FICHA DE INSCRIÇÃO DA FUVEST! CARREIRA:____".
"É agora, é agora! CARREIRA: geologia!".
"JOANA!!".
"Tem que passar na USP, viu?".
"Não estou te pressionando nem nada, filha, você sabe. Você sabe também que o dinheiro está curto, que o seu irmão não estuda e que você tem chances de passar numa universidade pública, né? Não estou te pressionando não, tá, filha? Mas vê se passa na USP".
"Menina que prestava Medicina pela quarta vez pula de prédio do Anglo".
Não bastasse isso, incorremos sempre em outras pressões. O chute na bunda daquele cara que já foi muito além do primeiro beijo; as amizades que agora ficam mais complexas e não podem ser resolvidas no tapa ou na troca apaziguadora de barbies; a família que estranha o fato de você, aos 20 anos de idade, não ter apresentado um único namorado, enquanto a sua prima já apareceu com 4 namorados, 2 noivos e um pretendente. A velha pressão da sociedade que, embora mais fraca, persiste em te fazer insistir naquela dieta de proteínas.
Depois da faculdade, vem a pressão para arrumar um primeiro emprego; para gostar pelo menos um tiquinho do curso (erroneamente) escolhido; para crescer profissionalmente e, se não for pedir demais, para crescer enfim. Pagando conta, claro. Retificação: pagando MUITA conta.
E por aí vai.

catch



nó(s)

Tem o nó de cadarço e o nó de gravata. Os mais desenvoltos chamam de e fazem “laço”. Os amadores chamam de e entendem “nó”.
Tem o nó na corda do marinheiro, do pintor de prédio, do vaqueiro, do praticante de rapel, do equilibrista. Às vezes, o nó não está bem firme, a corda solta e eles caem.
Um nó é para segurar; dois nós é para segurança. Profissionais realmente precavidos dão, no mínimo, dois nós bem dados… Também checam e rechecam a fibra da corda.
Uma corda tem as mesmas chances de dar nó quanto duas ou mais cordas. Se poucas ou muitas vezes, não interessa; fato é que as cordas sempre dão nós.
Nó ata e desata. Às vezes, a(s) corda(s) se ajeita(m) de forma a supor um nó que não acontece. Parece, mas nó é.
Tem nó frouxo e nó forte; a intensidade do nó está diretamente ligada à tensão da(s) corda(s). A tensão vai da precisão ou da inevitabilidade do nó. Porém, é certo que, quanto mais impreciso for, maior será o nó na garganta.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

montagem [Damien Rice]



[1]

por algum tempo,
eu achei que poderíamos durar um pouco.
então passei a achar que
poderíamos durar o tempo que fosse.
e, enquanto achava isso,
passei a pensar que o tempo que fosse seria,
de qualquer forma,
pouco.

mas deu que o tempo que fosse
passou
e hoje eu não sei dizer
o quanto ele durou.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

o abraço no ponto



elephant



eu tinha tudo pronto pra partir. a mala feita, as chaves no bolso, o elefante me esperando lá embaixo. ia triste e certa de que você não me queria mais ali.
e, também, que fôssemos racionais... nós não caminhávamos pra lugar algum além daquele emaranhado de começos e brigas. nós não aprendíamos mais nada. ficávamos lá, em meio a burrices. pra aliviar a perda, eu comecei a me ater a isso e encarava aquele sofá vermelho como a rara lembrança de um lugar em que algo, algum dia, soou certo. por isso, eu pude começar a pensar que seria melhor não te querer mais também.
eu era incomumente distraída. você tinha uma frieza irreparável, e ela ficava muito à mostra de vez em quando. quando você disse fim, por exemplo.

na saída, eu abri a porta do ap e dei de cara contigo. a tua cara não era boa, mas ninguém chorava. você arranjou um assunto qualquer; você sempre arranja. eu respondia com monossílabos, queria tirar de você tudo o mais que pudesse levar comigo, pra te deixar um buraco. mas não tirava com palavras e você não me olhava nos olhos. nós fomos covardes.
o papo agonizante continuava; chegou um momento eu quis escancarar. grunhi. você me espiou com dúvida e disse algo sobre o meu elefante estar entediado de tanto me esperar. eu vi naquilo o derradeiro sinal. assenti com a cabeça e disse um vago "então até mais".

quando ficou só, você se voltou para o sofá vermelho. tinha os olhos marejados e uma vontade doída de gritar, mas até você perde as palavras quando sufoca por dentro. saiu correndo atrás de mim, na esperança de me alcançar...

"espera!", eu ouvi. um sorriso imbecil e louco tomou conta de mim. "você esqueceu isso". e eis que recebi da tua mão o cd da Madonna.

ah, eu tinha me distraído de novo...
você entrou, eu subi no meu elefante e fui embora.